No Brasil o número de infectados por COVID-19 pode ser muito maior

No Brasil o número de infectados por COVID-19 pode ser muito maior

Devido a falta de testes em massa para detectar a infecção pelo novo coronavírus impede que tenhamos ideia de qual a extensão da epidemia no Brasil, afirma o médico sanitarista Claudio Maierovitch Pessanha Henriques. 

Maierovitch é coordenador e pesquisador do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância em Saúde da Fiocruz em Brasília. Já foi secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, entre 2012 e 2016, e presidiu a Anvisa entre 2002 e 2008. Mestre em medicina preventiva e social, ele coordenou o combate à epidemia do vírus zika que eclodiu no país em 2015.

“Eu suporia que o número [de casos de infectados pelo coronavírus é muito maior que 11 vezes a quantidade de casos notificados”. Se referia a um estudo que projeta 11 casos ignorados a cada paciente diagnosticado com covid-19. 

Por causa da falta de testes, só casos muito graves são testados. 

“Quando existe uma oferta maior de testes do que há no Brasil, é possível ter uma noção melhor, especialmente entre os que apresentam sintomas, de quem tem ou não o coronavírus. Isso permite entender melhor o caminho da doença e promover ações dirigidas a quem tem a doença confirmada”, Maierovitch explicou. Ontem (30) finalmente, chegaram ao país 500 mil testes, mas comprados pela mineradora Vale, e não pelo governo federal.

“Aí vemos medidas que muito mais respondem ao interesse econômico que usa a epidemia como argumento do que a um planejamento de governo que procure identificar tudo o que é preciso. Continua valendo mais a força do poder econômico”, criticou Maierovitch.

Só passam pelos testes laboratoriais aqueles pacientes que desenvolvem uma doença mais grave chamada síndrome respiratória aguda grave, os que morrem, ou os que fazem exames em clínicas particulares, o que é uma pequena parcela da população. 

Boa parte dos casos não procura serviços de saúde ou, mesmo se procura, não passa pelo teste. Isso sem contar que há uma chance muito grande de que um número muito maior do que os que procuram ajuda médica seja de casos assintomáticos, ou seja, de quem tem infecção mas não sente nada.

Na verdade, nenhum país sabe qual é o real número de infectados. Apenas como ilustração, onde se originou a pandemia, na província de Hubei, na China, o número de infectados deve ter sido maior que dez vezes o número de casos conhecidos. 

Mas, quando existe uma oferta maior de testes, do que no Brasil, é possível ter uma noção melhor, especialmente entre os que apresentam sintomas, de quem tem ou não o coronavírus. Isso permite entender melhor o caminho da doença e promover ações dirigidas a quem tem a doença confirmada.

A covid-19 é uma doença nova, então não havia testes disponíveis para ela até o início deste ano. Só quando foi identificado o RNA do vírus é que algumas empresas começaram a fabricar insumos para os testes. Isso foi mais ou menos no final de janeiro, há dois meses. 

De lá pra cá, diversas outras empresas passaram a produzir insumos para os testes e agora é que eles estão sendo colocados à disposição de forma mais maciça. No Brasil, houve a aquisição de testes para suprir os laboratórios centrais de saúde pública e os de referência. No entanto, são laboratórios com capacidade relativamente pequena quando se pensa na disseminação do vírus pelo território nacional.

Acho que o Brasil não tinha muitas alternativas, até aqui, uma vez que não havia testes disponíveis no mercado internacional. A Coréia do Sul, tida como exemplo por realizar exames em massa para detectar o coronavírus, produz seus próprios testes, é avançadíssima quando se fala em tecnologias para biologia molecular. Já o Brasil tem uma capacidade restrita. 

Uma projeção do Centro para Modelagem Matemática de Doenças Infecciosas da London School of Tropical Medicine, do Reino Unido, estima que tenhamos 11 vezes mais casos do que os realmente registrados. Mas há alguns degraus aí. 

O primeiro é o das pessoas infectadas mas sem sintoma nenhum. 

O segundo, das pessoas com sintomas leves. 

O terceiro, aí sim, de doentes um pouco mais graves que procuram serviços de saúde. 

O quarto, com os quadros graves, e por fim o das pessoas que morrem [de covid-19]. 

Só essas duas últimas situações é que têm gerado testes de rotina. Então, eu suporia que o número é muito maior que as 11 vezes para cada caso confirmado, uma vez que hoje temos 159 mortes e aproximadamente 1% a 2% dos doentes identificados morrem.

O problema é que a doença causada pelo coronavírus se confunde facilmente com um conjunto de outras que são comuns. 

O Ministério da Saúde, quando reconheceu a transmissão comunitária e mudou os critérios para considerar o que é um caso suspeito, não tinha como ter maior precisão além de dizer que qualquer um com doença respiratória aguda com febre podia ter coronavírus. 

Isso nos leva para um cenário de milhões de casos por ano de doença respiratória aguda, sem contar o coronavírus. Então, não tem como se nortear por esses dados, a não ser que tenhamos um número significativo de resultados laboratoriais de testes específicos para coronavírus. 

Se houvesse um grande número de testes, daí eu poderia saber se, de todo o aumento de casos de doenças respiratórias agudas, qual a proporção estimada de casos causados por coronavírus.

Fonte: Reprodução da entrevista de Maierovitch
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Jornal Paraná Shimbun

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